Entre a menos-valia e a vaidade

A questão do valor real das coisas, de si próprio e do outro é tão fundamental para nós quanto comer e respirar. A menos-valia é um termo de finanças que significa “o prejuízo que resulta da venda ou troca de um ativo abaixo do seu preço de compra/custo” (Wikibolsa). Isto equivale a dizer que se você compra um carro por 10 e quando o vende consegue só 8, então ele teve um valor percebido menor. Mas a menos-valia é muito mais do que isso. Quando deixamos de produzir, deixamos de ter resultados e, não os tendo, deixamos de receber as impressões do mundo externo quanto à nossa atuação efetiva e até sobre a nossa pertinência de existir, e passamos a atribuir um valor a nós mesmos que é menor do que realmente valemos. Na prática humana, a menos-valia passa a originar um processo de cristalização do impulso de realização que todos temos.  Para deixar a menos-valia para trás, é preciso buscar, o tempo todo, significar e re-significar o agir, pois a ação/trabalho é o elemento de transmutação da matéria e das pulsões internas.

Os impulsos partem de nós movidos por desejos tão profundos de nossa psique que muitas vezes é difícil controlá-los, de forma que, tanto a permissão para passagem irrestrita de todos os impulsos quanto a retenção em demasia da força motivadora humana culminam em desarranjos de comportamento.

A vaidade, por exemplo, que está na outra ponta, é resultado concreto do excesso de exposição dos desejos interiores e da supervalorização daquilo que pouco valor tem, visto que a maioria de nossos desejos ainda representam esferas de gozo diretamente ligadas a valores de pouca importância, geralmente atrelados ao consumo e ao prazer imediato. A palavra vaidade é a fusão, digamos assim, de duas outras: vã + idade (tempo, momento), ou seja, tempo ou momento daquilo que é vão, inútil, sem valor.

Em resumo, tanto a menos-valia quanto a vaidade significam menor valor. Encontrar o meio termo entre estes dois extremos é ter que re-significar o valor real de tudo aquilo que nos rodeia em nossas relações pessoais, familiares, étnicas, profissionais, políticas ou sociais. É reinventar o seu coeficiente X pessoal que atribui valor a tudo aquilo a que estamos imersos.

Aquele que consegue re-significar o valor das coisas tende a encontrar a caridade, pois caridade significa, em termos bem simples, caro + idade, ou seja, tempo ou momento em que reconhecemos aquilo que nos é caro, que tem valor real para nós – os valores reais da vida.

Sobre João Viégas

Consultor e professor de Pós-graduação e MBA em Marketing e Comunicação, autor e editor do livro 'tempo.com - A comunicação esquecida em tempos de Internet', articulista da revista Moda Brasil Magazine, palestrante em comunicação e professor de Língua Inglesa.
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