Tem Face?

Fui pego de surpresa por um post de uma amiga no Facebook, no qual ela me dizia o seguinte: “‎João Viégas … Ouvi uma hoje que me senti velhaca…. Dizem que na “balada”, os caras não pedem mais telefone…. Só Face…. QQ isso? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Me ajuda aí!!! Já tem texto no forno ?”

Logo pensei: era o fermento necessário para escrever sobre o comportamento contemporâneo, que é sempre bom de se fazer, para que a gente vá elaborando os efeitos dos nossos tempos atuais e possa ter mais maturidade e naturalidade para entendê-los, aceitá-los ou modificá-los.

Lembrei-me então que, há uns 20 anos, arrancar um telefone de uma garota em um lugar qualquer era uma vitória, quase uma façanha, dependendo, claro, das situações e pessoas. Obter o número do telefone da garota era um ótimo prenúncio de encontros futuros, se tudo acontecesse dentro da CNTPP – Condições Normais de Temperatura e Pressão da Paquera.  Quando se conhecia alguém em um bar ou festa em casa de amigos, a coisa acontecia mais ou menos assim, na informalidade textual (risos):

  • 1º passo – A marcação  – aquelas olhadas fulminantes que cruzavam salões de bares e festas, tentando encaixar o olhar dela no seu, aquele “tum” que dava no peito, depois identificar detalhes anatômicos promissores, deixas, cabelo pra cá, cabelo pra lá, etc.
  • 2º passo – Jovem demais pra morrer – verificar cuidadosamente se a gatinha não estava com nenhum cara, um brutamontes que pudesse fazer sua mãe chorar de desgosto.
  • 3º passo – A coleguinha pro coleguinha – naquele tempo, as conquistas eram tramadas entre amigos, rolava uma tramóia danada antes de a coisa acontecer, demorava mais, o flerte era mais aproveitado. Eram risos, conversas com a mão na boca, “chega aí, chô te dá uma ideia”, “tá vendo aquela menina ali?”, coisas do gênero. De forma que sempre rolava algo como: “eu fico com aquela ali e você fica com aquela lá”, que podia ser ou não amiga da gatinha em questão.
  • 4º passo – A apresentação – Certos de que o alvo estava visualizado, era hora do approach – chegar na mina e se apresentar ou deixar o amigo lhe apresentar pra menina, na cara dura, tipo: “Aqui, tem um amigo meu ali querendo te conhecer.” Gente, era muito bobo, inocente, mas era legal demais! E o frio na barriga? Hã? Vai dizer que nunca passou por isso? (Que dó!)
  • 5º passo – Luz, música, ação! – A geração que se fez adolescente entre a década de 80 e a década de 90 teve um auxílio divino, um bônus especial para conquistas amorosas advindas de trilhas sonoras melosas, com baladas americanas que arrancam suspiros até hoje, e que muitos trintões cantam de cor e enrolado. O apagar de uma luz, uma música dançada coladinho, ali…, cochichos no pé do ouvido que mal se escutava, só esperando a hora para dar o bote… arredava um pouquinho o rosto praqui, chegava mais pra perto, sentia o perfume mais um pouquinho, gravava na memória… dava uma viajada, depois aquele beijinho esbarrado de canto de boca só para testar o interesse e preparar para o Gran Finale ou ver se não ia rolar uma reação negativa… e tal, parará… e, de repente… pimba! Ããã! Trem!… Tascava um beijo e atracava com a menina. Depois, um bocado de papo, e beijava mais… depois conversava mais, limpava a boca e beijava pra sujar tudo de batom de novo! Aí trocava ideia com as amigas e tal, trazia os amigos, e tal… Ave Maria! Ah, trem, hein? “Os bichinho voltava” pra casa rindo igual mala véia. As meninas engoliam os brincos de tanto rir. E pra dormir? Cadê que dorme, gente?! A menina não saía da cabeça, as músicas ficavam dando REPEAT na cabeça até 3 horas da manhã, a gente dormia vencido pelo cansaço mesmo.  No dia seguinte, você acordava e tal… dava um tempo… aquelas coisas e ligava mais tarde, se tivesse gostado, e dava continuidade na coisa e aí ia…(risos)
Aí, hoje, vem a minha amiga e fala: “os caras te pedem o face!” Imagino a situação:
Situação 1
_ E aí, blz?
_blz?
_Nó, tava te vendo ali, cê é gata demais!
_Ah, brigada!
_Tem face?
_Tenho.
_Qual que é?
_Fulana de tal
_Blz, vô te add lá.
_Blz.
_Blz.
…..tuntsituntsituntsituntsituntsituntsituntsituntsituntsi  tumtumtum tsituntsituntsituntsituntsituntsi… 
Situação 2
_ E aí, blz?
_blz?
_Nó, tava te vendo ali, cê é gata demais!
_Ah, brigada!
_Tem face?
_Tenho.
_Qual que é?
_Ah pra quê face se eu posso te mostrar tudo?…
_Bom tb! bora lá?
_Já é! (e comenta com a amiga) Carlinhááá, vou indo nessa, gata, a balada agora é em outro lugar.
_uhuuu amigááá! Manda vê e depois me liga pra me contar tuuuudo! Bjo, gata!

A superficialidade nos relacionamentos dá uma dica boa para nós que estamos do lado de fora: medo do comprometimento, impaciência para a descoberta, ânsia pelo resultado e prazer efêmero. Resultado disso? Adultos instáveis, temerosos, inseguros, de humor volátil e desiludidos com os relacionamentos em geral. Estão acostumados com o aqui-agora em demasia, muito só na sensação do corpo. Falta o pulo, aquele salto no breu, que você não sabe se o Outro vai estar lá para te amparar, mas você pula, aposta, arrisca, paga para ver, investe em seus sentimentos, nos aprendizados e incertezas do provir, no combo de manias e chaturas que vem em letras miúdas, mas que “se dane!”, ninguém é perfeito mesmo. Falta a interação intersubjetiva real, aquela de cujos dados são transferidos por um taxa de download ainda de tempos do modem 56k. Falta abrir margem para pensar no futuro através das experiências concretas no presente, conhecer os pais dele(a), ir aos poucos, viajar juntos… E se não for o cara ou a garota? E daí? Começa-se de novo, dá-se um jeito para tudo se a intenção de conhecer e amar for verdadeira.

É preciso não querer ser como “gente-copo-descartável”, que você pega como um copo descartável – põe na boca sem sentir que pôs, bebe a água sem sentir que bebeu e joga fora depois de usar uma vez só. Falta coragem para pular. 

Sobre João Viégas

Consultor e professor de Pós-graduação e MBA em Marketing e Comunicação, autor e editor do livro 'tempo.com - A comunicação esquecida em tempos de Internet', articulista da revista Moda Brasil Magazine, palestrante em comunicação e professor de Língua Inglesa.
Esse post foi publicado em Canto das Luluzinhas, Comportamento, Sociedade e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

8 respostas para Tem Face?

  1. … amar é um ato de coragem.

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  2. Lívia Viégas disse:

    As pessoas estão com medo de se envolver…………….mas talvez isso aconteça porque elas sabem que não têm nada de interessante para oferecer……aí ficam com medo de se apresentar como verdadeiramente são. Eu continuo apostando no relacionamento saudável e prazeroso. E olha que têm valido a pena!!!🙂 / !!!

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  3. Rachell Amâncio Ricardo disse:

    Amar não tem sido algo imprescindível em muitas vidas. É amando, relacionando, compartilhando, vivenciando, nos entregando, nos comprometendo, que descobrimos e acertamos os verdadeiros e melhores passos.

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  4. Filipe disse:

    Não vou falar nada para não estragar o momento!!!!

    É João, foi-se o tempo em que era necessário “dar idéia” para “ficar” com uma garota.
    kkk… Quando agente pensa nisso parece um passado tão distante.
    É muito comum em baladas de hj o comentário em epígrafe.
    Hoje as pessoas se olham, se curtem, se pegam e se largam e acabou.

    É um “outro mundo” para o qual não pretendo voltar… pois demoraria muito para me adaptar e nunca me adaptaria por completo.

    Como o do futuro só temos a certeza do incerto! Eu sou Filipe com 30 e cada dia mais velho!!!

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    • É Filipe, “Não vou falar nada para não estragar o momento!” é muito do que rola atualmente. E o medo de não ser aprovado pela pessoa? Se falar, começa o julgamento do que é a pessoal e aí a embalagem não segura o rojão do conteúdo. Tempos contemporâneos, meu caro.

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